Quando o passado está presente

fepasa

Quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sabe como me lembro do passado? Me lembro literalmente como se fosse hoje! Na verdade nem é uma lembrança, mas é viver momentos que ainda estão acontecendo. Sim, eu vejo e sinto imagens dos registros como se estivessem acontecendo no exato momento. O passado e o presente se tornam uma coisa só. No máximo, há uma parede de vidro transparente entre uma coisa e outra, de onde me vejo esmurrando, tentando me separar daquilo que entendo como sendo o passado.

Em 2013 estive em Campinas, minha cidade de origem e onde vivi a infância de 1971 a 1975.  Saudoso que sou, resolvi visitar o bairro da Vila Nova e a rua onde morei. É muito estranho você ver o local modificado, pessoas estranhas e a sensação do vazio de não ser mais nada daquilo que vivenciou de maneira tão feliz. E quando aconteceu de eu reencontrar alguns conhecidos que ainda moram lá, me deu sensação de solidão. A pessoa o vê como alguém que há muito e muito tempo não via e se sente feliz pelo reencontro, não muito mais do que isso. Outros nem mostram tanto entusiasmo, afinal, nem lembram tanto de você como você lembra deles, e isso é bem frustrante. Mas eu, de minha parte, os vejo exatamente como os via há 40 anos, o momento é o mesmo, o clima, a sensação e tudo o mais.

Meu amigo, Nelsinho, entrou pra tomar banho, fiquei esperando, sentado no muro, e quando ele voltou, estava mais alto, aparentando ter 50 anos de idade

Diante de tanto contraste e incompatibilidade de percepção, resta enxergar os lugares como fantasmas e as pessoas meio como que zumbis. Onde estão todas aquelas pessoas que ontem mesmo, sim, ONTEM, estavam aqui há 40 ou 30 anos? Não são mais as mesmas, embora ainda estejam vivas! Sou maluco? an ham… sou.

Na verdade, quando volto a Campinas ou Paulínia, a sensação é sempre essa. Pretensiosamente, me vejo colorido andando em cenário preto e cinza. Até mesmo meus amigos mais presentes os vejo como muito apáticos em relação ao inconformismo de o tempo ter passado tão rápido (pelo menos pra mim). Claro que, as circunstâncias e o meu estilo de vida nesses anos foi bem diferente da deles que, se casaram, tiveram filhos, passaram a vivenciar o desenrolar da vida de forma natural, como havia de ser normal. Eu nunca me conformei em ter que deixar tudo pra trás, criei um abismo entre a vida alucinada com a turma da adolescência e a vida sem rumo em Salvador, onde vivo até hoje, sem ter construído nada daquilo que eles construíram.

Parei no tempo, eis a verdade! O passado, então, passa a ser uma forte e indigesta mistura em meu presente. Tenho que ir me livrando dessa presença tão impactante e não deixar que a saudade seja um sintoma de depressão.

O passado fica me chamando e dizendo: “Ei, volte, você tem coisas a resolver aqui!”

É mas embora minha mente esteja perpetuada, meu corpo já não corresponde tanto e isso pode significar um sofrimento maior ainda, em breve, no futuro que se tornará presente, assim como este presente que já foi futuro e será passado.

 Se esta música for trazer melancolia e tristeza, não ouça

Um comentário Quando o passado está presente

  • ANA PINHEIRO  disse:

    Querido Aji, seu sentimento em relação ao passado he genuíno. A saudade tem um lado bonito, ela eterniza nossos afetos. Gostei do texto, me fez revisitar meu passado. Bjs

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