Olá Addy, como se sente?

– Me sinto com dor e medo o tempo todo. Medo de tudo, de todos e de mim mesmo, das minhas atitudes ou falta delas. De tudo que deixei para trás e não posso mais recuperar. Dos perdões que precisaria para aliviar minha dor tenebrosa causada por tanta culpa e injustiças que cometi, embora muitos me perguntem “onde?” Não era intenção, mas se as atitudes foram justamente uma fuga diante de tanta dor, então foram tiros pela culatra… estou gravemente ferido e sinto que mereço isso! Apenas queria compensar de alguma forma, sei lá…

Se sente assim desde o princípio?

– De qual princípio? Um princípio programado não acho justo ou lógico, a não ser que eu tivesse também escolhas para fugir desta programação. Eu tenho escolhas? Sim, talvez, na verdade eu as vejo diante dos meus olhos mas não posso tocá-las… vejo sangue escorrendo e não posso estancar! Mas creio que no princípio, pelo menos, havia uma caixa de primeiros socorros conhecida como “esperança”. Na cabeça adolescente seriam os sonhos, a ilusão, sempre protelando e, de certa forma, acomodado por não perceber o tempo consumindo a alma aos poucos, mas ao mesmo tempo tão rapidamente. E sei que sempre haverá novas ilusões, frustrações, venenos e todo tipo de sensação. Só não há mais como protelar.

– Então como se sente assim, estando tão jogado aos pedaços?

– É uma solidão gigantesca. Você quer que o mundo saiba da sua dor, mas ela não pode ser explicada por palavras. Não há ser humano capaz de compreender, não há empatia com tamanho poder para isso. Na verdade nem seria justo compartilhar tanta dor com as pessoas, ninguém merece saber que existe algo assim. E tudo o que posso gerar são frustrações daqueles que tentam de alguma forma ajudar mas não conseguem. Tenho um quarto, um  refúgio e um grande amigo, um gato que parece me compreender, afinal, ele não é um simples humano, ele é superior. Então, ele faz de tudo para arrancar risadas de mim, e, sim, ele consegue! Preciso protege-lo mais e mais e ele sente a necessidade de ficar comigo no quarto, me protegendo também. Ele junta meus pedaços espalhados na cama e em toda parte. Me traz presentes do quintal e quer que eu assista suas brincadeiras e eu assisto e participo também. Das ferramentas que possuo para conter a depressão, ele talvez seja a mais importante. Obviamente tenho pessoas queridas fazendo de tudo para me ajudar, e a elas sou eternamente grato, mas como disse, elas não possuem o poder felino para entrarem no meu caldeirão de ácido sem se queimarem. Não quero que ninguém se machuque mais. Basta a minha própria dor.

– Mas e quanto a Deus?

– Sei que ele me observa, embora aparentemente não esteja mais atendendo minhas súplicas. Mas consegui uma nova Bíblia e acho que ele fez com que eu a adquirisse. Quando as orações, diante de desespero espiritual, são muito sinceras e humildes Ele OUVE e nos mostra um caminho. Preciso agora de forças para ler e tentar absorver a verdade salvadora que, se existe, só pode estar contida neste livro. As esperanças de vaidade adolescente se transformaram em esperança de salvação da alma, um sentido na vida, se é que existe. Tem que existir!

– E como se sente tendo que encarar um novo dia?

– Cada dia acordo diante da ilusão de que estaria tudo melhor, mas preciso manter essa ilusão “acesa”, é o que me mantém relativamente vivo. E como diz a letra da canção que me inspirou a escrever tudo isso “Haverá novos amanhãs e continuarão algumas dores” sim, até o fim, e poderão ou deverão ser mais intensas. O prêmio que busquei em outros setores da vida, digo os ilusórios, que venha em forma de um simples apagar das luzes… que a dor final esteja sendo retalhada nesses longos anos, desde o princípio. Todo o poder que eu julgava ter na ilusão foram arrancados de mim pela realidade…. eu odeio a realidade!!!

– Por último, pergunto novamente: como se sente Addy?

– Sim, esta pergunta teria que ser feita pelo resto da eternidade e ainda assim eu não saberia como responder. A dor da escravidão, de toda injustiça existente no planeta, da mais sombria solidão, contidas numa só alma…  a dor da existência, um cego ardendo em chamas no peito enquanto rodeado por pessoas felizes num paraíso. Os gritos por socorro não são ouvidos por tais pessoas. O maldito ser quer morrer, colocar um fim em tudo, mas como morrer alguém que já está morto!?
A única esperança é saber que nada dura para sempre. Um sofrimento como este não pode durar para sempre, a menos que Deus seja na verdade um diabo e isso faria menos sentido ainda. Eu, que sempre quis acreditar na eternidade, oro agora para que ela não exista …mas também sei que  me tornei egoísta por ter que se preocupar comigo mesmo 24 horas por dia nesses anos todos….sentindo pena de mim mesmo enquanto muitos diziam que eu era fraco, vagabundo, pessimista, mas pensavam por ignorância e os compreendo.  É muito melhor não se aprofundar enquanto a vida passa. Bem melhor ser ignorante acerca da existência.
Cada um tem sua dor e lamento por aquilo que possa ser ainda pior do que o que eu sinto (não vejo como), mas infelizmente a desgraça alheia alivia um pouco a solidão. Saber que sempre pode ser pior é horrível, mas ao mesmo tempo me consola um pouco.  A única coisa que sei é que farei de tudo para não mais julgar quem quer que seja. Se Deus permite que seja, então tem que ser e ponto final.

Como me sinto?  teria que escrever um livro, mas não vejo sentido nisso, não vejo motivação em nada. Isso, por si só, já é, na verdade, uma grande tragédia..

 

HOW DOES IT FEEL (COMO SE SENTE?)
SLADE

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Letra e tradução

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